Entrevista cedida à Revista Única em 1/12/2011. Não publicada por não confirmar a tese do jornalista.
O que é a nomofobia?
Nomofobia é um termo que tem sido usado para designar uma fobia ou sensação de angústia quando alguém se vê impossibilitado de contactar ou está incontactável usando o telemóvel. O termo é muito recente e começou a ser conhecido quando o instituto Yougov fez uma pesquisa para os correios britânicos e verificou que mais de 50% da população britânica é possuidora de telemóvel. A origem do termo vem de no – mobile (sem telefone), em português nomofobia, pretendendo designar o horror dos telefones.
Porque razão prefere o termo dependência a nomofobia?
O termo nomofobia quanto a mim foi erradamente atribuído a este problema. Porquê? Se as pessoas sofressem de nomofobia teriam medo de telefones e não medo de ficarem sem telefones, neste caso telemóveis. No meu ponto de vista não se trata de uma fobia, será mais próximo de uma dependência. O que as pessoas têm é medo ou receio de ficarem sem o telemóvel. O telemóvel, neste caso, funciona como qualquer adição. Ao longo da minha prática profissional, como formadora, tenho encontrado muitos jovens e adultos que não conseguem desligar o telemóvel ou guarda-lo durante um tempo. Na minha prática clínica como psicoterapeuta nunca encontrei ninguém que se queixe de “fobia” de telemóvel. Portanto não é uma fobia, embora pareça ser.
Como é que se define que é dependência? Não poderá ser uso excessivo?
Uma dependência é quando existe um uso excessivo de algo que causa dano à saúde da pessoa e por consequência a todas as esferas da sua vida. O termo dependência normalmente está associado ao consumo de substâncias psicoactivas, álcool entre outras. Não sei se poderemos considerar o abuso do uso do telemóvel como uma dependência. Talvez o termo correcto seja uso excessivo. Mas se pensarmos que já existem casos de pessoas que perderam o emprego por não conseguirem controlar o uso do telemóvel, ai sim, poderemos falar de dependência. Mas dependência do que? Telemóvel? Ou dependência do outro, do ser humano, com o qual se quer estar sempre em contacto? A questão não é tão simples.
Que sintomas transmite uma pessoa que sofre desta dependência?
O único sintoma é estar sempre a olhar para o visor do telemóvel, não se desligar do telefone nem um minuto.
Como se comportam essas pessoas? Que comportamentos exibem na relação com os outros? Na forma de comunicar...
O único comportamento alterado é o transportar o telemóvel para todo o lado, como disse atrás, fora isso têm uma relação normal com os outros, comunicam-se de forma igual ao outros…mas usando mais o telemóvel. Podemos até extrapolar e associar este comportamento a aspectos mais infantis, quando em criança existia a necessidade de ter um objecto transicional (uma fralda de pano, chupeta, ursinho) que acompanha a criança sempre e que é um prolongamento da mãe, é um objecto de segurança portanto. Neste caso o telemóvel parece ter a mesma função.
Que uso diário dão ao telefone as pessoas que sofrem da dependência?
Dão muito uso como é de esperar. O telemóvel nunca fica guardado, nem mesmo quando estão em casa. É transportado da sala para a cozinha, para a casa de banho, ou seja, nunca sai do campo de visão. O ter ou obter uma resposta de imediato, mesmo á distancia, foi possível graças a esta tecnologia, assim, este é apenas um comportamento adquirido do uso da tecnologia. O comunicar com alguém passou a ser possível no imediato. Estamos a assistir a mudanças de comportamento de uma nova geração, baseado no uso da tecnologia. Muitos jovens referem que “falaram” muito com alguém durante o dia, nomeadamente namorados (as), e se explorarmos mais o assunto a conversa processou-se por meio de mensagens escritas através do telemóvel, uma nova forma de conversar.
Em que consiste o tratamento?
Não há tratamento porque não sei se estamos a falar de dependência, não sei se isto é uma doença…pode bem ser o uso excessivo e inadequado de um aparelho. Nem todas as pessoas usam o telemóvel de forma inapropriada, ou seja de forma excessiva. Parece-me é que estamos a querer criar uma doença. Os comportamentos alteram-se ao longo dos tempos com base no avanço da ciência e da tecnologia, portanto será um processo natural. Se isso traz consigo alguns problemas para as relações entre as pessoas? Concerteza que sim. Cada vez mais as relações são virtuais. Está-se a perder o contacto directo com o outro. Outro aspecto negativo tem a ver com a frustração. Deixou-se de esperar uma resposta atempada. Todos querem ser atendidos de imediato. Deixa-se muito pouco também à imaginação. Quase que podemos seguir os passos diários de alguém através do telemóvel. Deixamos se ser tão livres como éramos.
Pela sua experiência, que consequências observa na vida das pessoas que sofrem da dependência?
Têm -me chegado algumas situações (que não estão relacionadas com a prática clínica) de pessoas que têm sido advertidas nos locais de trabalho e, uma situação ou outra em que um dos motivos do despedimento poderá ter estado na origem do uso excessivo de telemóvel.
Quando é que alguém é considerado curado?
Não podemos falar de cura, porque não me parece que seja uma doença, pelo menos não conheço situações descritas como tal. A investigação do instituto britânico foi aproveitada para criar algo que não faz muito sentido. Também podíamos falar do uso excessivo do carro, do computador, do entre outros objectos. Não me parece ser um assunto que mereça destaque ou relevância. É um falso problema. Quanto muito poderá ser uma questão para reflectirmos na base educacional, ou seja, deveríamos educar os nossos filhos a fazer um uso correcto do telemóvel.
