segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Luto, a dor da perda.


A dificuldade em encarar o fim da vida, como parte da existência é o que faz do luto uma experiência tão assustadora. Desde a infância, o ser humano é treinado para não perder e, ao invés de se trabalharem também as perdas, porque fazem parte da vida (continuamente perdemos e ganhamos), incentivamos as crianças a ganhar e acumular ganhos. Os pais protegem os filhos de frustrações e, perder é essencial para entender que nada na vida é permanente. Na infância perdemos jogos, objectos e até pessoas (normalmente os avós). Assim, a preparação para encarar a morte de forma menos traumática é possível e começa na infância. As crianças podem ir aos funerais e devemos dar respostas honestas (sempre adequadas à idade), acerca da morte, em vez de respostas fantasiosas, como a de que a pessoa foi para o céu, viajou ou tornou-se estrela. No dia a dia é preciso falar das perdas como parte da vida. Ensinar as crianças sobre a finitude ajuda a objectivar a existência, reduzindo a angústia existencial.
Os sintomas do luto são divididos em fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Nesse processo, a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, angustia e revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos, vão depender do histórico de perdas da pessoa, e também do grau de relação com quem morreu (a perda mais dura é a de um filho, pois quebra um ciclo ilusoriamente lógico) e ainda do tipo de morte. Nas mortes traumáticas, acidente, suicídio, assassinato, pode haver uma fase de negação mais prolongada e a culpa e a revolta podem aparecer com mais intensidade.
Para superar o luto é importante não sublimar a dor, ou seja canalizar a energia para algo que distraia da dor. A pessoa tem que mergulhar na dor, chorar e manifestar o seu sofrimento. Faz bem à família reunir-se e falar sobre a perda, ver fotografias, recordar situações. Os rituais também ajudam, porque a recuperação é centrada na aceitação da perda.



O velar o corpo e o funeral são um ritual que permite elaborar a perda, despedir-se da pessoa. Quando não existe corpo para fazer o funeral a perda é muito mais difícil de elaborar, conduzindo a sofrimentos muito prolongados que exigem a intervenção de profissionais. O período de luto corresponde à fase em que a falta da pessoa é sentida em casa dura algum tempo. A pessoa não aparece e a dor piora. É vista e sentida em lugares que era hábito estarem. Há hora que chegava e, metia a chave na porta, continua a existir a sensação que uma chave entrou na fechadura. Essas sensações vão desaparecendo à medida que a pessoa vai aceitando a perda. É nesta fase que pode existir uma tentativa de resgatar a vida anterior à perda. Mantém-se a roupa no armário, guardam-se todos os objectos da pessoa e em certas famílias impõe-se o tabu. Outros desfazem-se de todos os pertences do falecido, na tentativa de se livrarem da dor com mais rapidez. Para alguns, passa a ser proibido tocar no assunto. Muita gente muda de casa, de profissão e adopta causas viradas para a relação de ajuda como forma de sublimar a dor.
O facto de a pessoa mudar de casa ou de profissão não faz com que a perda e o sofrimento desapareçam. Estas atitudes, funcionam como curas geográficas, mudam de sítio e o sofrimento é recalcado, impedindo a pessoa de reviver/recordar, processo fundamental à elaboração da perda e aceitação da morte.

De uma forma geral leva-se um a dois anos a “elaborar a perda”, depende da capacidade de resiliência da pessoa, ou seja a forma como cada um lida com os problemas e o sofrimento. Durante esse período, vão acontecer as datas importantes (natal, aniversários, etc). Se os sintomas de luto persistem passado algum tempo para alem do razoável (cinco, seis e mais anos), é provável que a pessoa não esteja vivendo as etapas do luto necessárias para ultrapassar a perda. O processo considerado “anormal” tem duas reacções opostas: ou a pessoa não sai do luto (a mãe que arruma o quarto do filho, põe a mesa para ele,) continuando a preservar o morto, numa atitude de mumificação, e negação como é óbvio, não saindo daquela fase inicial. Ou então a pessoa nem sequer entra no luto (fica indiferente, não chora, age como se nada tivesse acontecido). Nesse luto adiado, a dor fica guardada em algum lugar e um dia vem à superfície emergindo sob outra forma, normalmente de depressão. Quando se avalia a história de vida da pessoa (pode até ter passado dez, vinte ou mais anos) encontra-se um luto por elaborar, confundido com a depressão muitas das vezes e, com uma vida cheia de antidepressivos que apenas servem de rolha (impedem o sofrimento de fluir) nestes casos. É aqui, que a ajuda de um psicólogo é fundamental, para ajudar a pessoa a elaborar a perda.




7 comentários:

Pena disse...

Estimada Amiga:
Um Post admirável de quem conhece bem o sentir de uma perda nas pessoas que passam por essas situações delicadas e terríveis.
Olhe, penso que sou equilibrado, mas, concordo consigo, tenha a plena sensação que se se passasse comigo perder-me-ia de mim. Jamiais me encontraria.
Tenho o caso de uma aluna que perdeu o pai há pouco tempo, mas o seu comportamente é perfeito. Digno. Correcto. Penso que encarou bem a perda, embora lendo-lhe o olhar revela tristeza. Uma tristeza que, penso, nada saudável, dada a idade, mas que não assumiu bem o que se passou ou lhe está a contecer.

Perfeito Post. Útil.

Abraço amigo de imensa estima e respeito.
Cordialmente...

pena

Lídia Craveiro disse...

Manter uma postura de " não se passou nada" não pode ser normal. Claro que cada um reage de forma particular, mas perder um pai, não é coisa leve em idades precoces, falo de crianças, jovens e adolescentes. A tristeza manifesta sim é saudável, leva á elaboração do luto e da perda.

Vieira Calado disse...

Olhe, amiga, a minha companheira morreu em Setembro.
E foi cremada.
Foi uma experiência mais dolorosa do que simplesmente tivesse sido sepultada.
Deixaram de haver referências.
è quase como se nunca tivesse existido.
O que pensa disto, a senhora que é uma estudiosa?
Desculpe.

Beijinho.

Sara Candido disse...

Meu Filho faleceu faz um ano Cancer.....dói...me falta um pedaço...estou morrendo aos poucos,,,e o Psiquiatra ja deu alta....nao consigo comer direito..nao vivo...eu sobrevivo...sei q faz mal pra me Felipe...mas me sinto fraca....Ahhh Deusss misericordioso...me ajuda.....to candada...vi mu filho morrendo na uti....nao tenho mais forças...

carina disse...

Acabo de perder minha avo e inevitável o sentimento de culpa, estou tentando n ficar so p n ficar c depressão, era minha maezinha do coração por mais q n quera fik um sentimento de culpa! Procure lembrar q havera uma ressurreição e creia nela deus n mente! Estou me apegando a isso ou morro com essa dor!

andrea disse...

Perdi meu filho de seis anos, acidente na piscina. É mui forte a dor da perda. A vida perde o sentido e tudo razão de ser. Perdi noção do tempo. Perdi minha vida... A saudade é forte e depois de um tempo , não se encontra alguém que acredito entender essa dor que muitas vezes gostaria de compartilhar. A família, cada um vê de uma forma, cada um entende de uma forma, cada um aceita do seu jeito. E é tudo diferente de mim que sou mãe.

Anónimo disse...

Todas as dores Sao diferentes assim como sao as perdas...eu perdi a minha mãe para o cancro..vivi com ela os últimos 10 meses da vida dela..acompanhei as fases horriveis que um doente passa e a sensação de impotência nunca me abandonou..33meses se passaram e a dor não vai embora,respiro meios folegos e choro soluços de agonia todos os dias..um sentimento de culpa por algo que fiz ou que deixei de fazer ou disse ou deixei de dizer que não me deixa nem um minuto..minha mama querida...dizem que ao lembrar-mos coisas boas alivia a dor...mas infelizmente ao fechar os meus olhos vejo e sinto a agonia e sofrimento da minha mãe nos últimos 3 semanas da vida dela..choro hoje mais do que chorei no funeral ...pois pouco ou nada me lembro desse dia...e não tomei nenhum calmante ou nada que se pereça...apenas não me lembro...tenho uma filha de 12 anos e posso garantir que ela emais ninguém me mantém viva e a continuar...mas uma vida meia vivida com toda a certeza...abraços para todos os que perderam alguém.