domingo, 25 de Outubro de 2009

Quando dois se tornam três: a mudança que o nascimento de uma criança traz na relação conjugal.



Quando um casal tem um filho, seja essa criança planeada ou surja de forma ocasional, uma nova família será constituída a partir desse nascimento, ou melhor, podemos dizer que desde a confirmação da gravidez surgem alterações na relação do casal. Mãe e pai deixam de ser apenas parceiros e filhos para passarem a ser pais. A mudança de papéis e funções alteram-se em consequência do nascimento deste primeiro filho.

Esta nova família nuclear que se forma é produto de um casal que vem de famílias diferentes e que transporta consigo a genética, os valores e histórias das suas famílias de origem. Tudo isso é uma enorme influência na configuração da nova família. Cada membro do casal traz para a educação dessa criança tudo aquilo que recolheu da sua própria vivência familiar.
A primeira alteração que surge na dinâmica do casal está relacionada com o estado físico da mulher que a partir de alguns meses de gravidez pode condicionar (dependendo do estado de saúde da mulher), em situações anormais o relacionamento sexual do par. A frequência pode diminuir ou podem mesmo deixar de existir durante alguns meses. Se a relação afectiva entre os dois não for sólida e madura, poderá ser um abanão na relação do casal. Por vezes surgem as infidelidades e a poderá até existir uma ruptura dessa relação. Um dos sinais de que essa relação poderá ser sentida como insegura por parte da mulher tem a ver com o aparecimento dos tão falados enjoos, que não são mais que manifestações somáticas da insegurança afectiva ou muitas vezes da rejeição inconsciente da gravidez por parte da futura mãe. Por vezes desaparecem, quando a vinda da criança é aceite ao nível inconsciente e a mãe se sente mais segura na relação com o marido, ou seja, não vai ser abandonada.
O nascimento do primeiro filho é uma fase de profunda transformação na vida do casal, criando novos papéis, principalmente o de mãe e de pai, o que, de alguma maneira irá ter repercussões na relação conjugal. Além disso, esta etapa do ciclo de vida familiar irá afectar toda a família ampliada, alterando papéis e exigindo uma reorganização de todo o sistema familiar.
Com o nascimento da criança a tensão aumenta no seio da família e entre o casal, é uma tensão dita normativa, e pode ser vivida com maior ou menor ansiedade, variando esse aspecto conforme foi vivido pelas gerações anteriores, ou seja, se o nascimento das crianças foi vivido com calma e serenidade na família dos progenitores decerto esse sentimento e essa vivência será perpetuada, se pelo contrário foi vivido com ansiedade então é provável que volte a acontecer, dificultando a adaptação da criança e dos pais a uma nova situação.
Muitos casais com problemas ao nível do relacionamento idealizam o nascimento da criança como um momento mágico acreditando muitas vezes que ele irá resolver problemas conjugais e familiares. No entanto, embora isso possa acontecer, muitas vezes sucede o contrario, os conflitos e os problemas agudizam-se, pois agora existe mais um membro que durante quase todo o tempo exige a atenção da mãe e do pai, deixando durante muito tempo pouco espaço para o casal. As mudanças na vida conjugal são tão abruptas que muitos casais não resistem a elas. Outros acreditam que com o nascimento vão ficar mais unidos e acabam por se afastar devido a discórdias e discussões que podem levar mesmo à separação.
Alguns casais unem-se, de facto, assumindo o papel quase de missionários, pois muitas vezes esta criança vem cumprir uma função na família.
Estes são alguns aspectos da alteração da dinâmica familiar, no entanto existem outros, específicos de cada família, que não estão aqui mencionados.
A ansiedade desta fase é inevitável, mas nem sempre é geradora de conflitos, no entanto é importante o casal tomar consciência das alterações que a sua vida irá sofrer. Frequentar grupos terapêuticos de aconselhamento (quando existam duvidas e ansiedades) poderá ajudar os membros do casal a desmistificar e a elaborar medos e ansiedades decorrentes dessa nova mudança de papéis.

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Livros de auto-ajuda. Ajudam mesmo ou são um bom negócio?

Imagem surripiada deste blog.

De vez enquando sinto uma certa irritação quando algum amigo ou conhecido me tenta impingir certos livros de auto-ajuda, que segundo eles são muito bons. Bons para quem? Pergunto eu a mim mesma. Continuando... que lá chegarei. Ainda me dizem: Tu que és psicóloga devias ler, ajuda imenso. A mim? A eles, que mo recomendam? A mim não me ajudam de certeza, para já não preciso, e se um dia tivesse que recorrer a alguém seria a um ser humano, não a um livro. A essas pessoas que os lêm também não, pois de contrário, quando chegassem ao meio do livro estariam quase bem, admitindo que o livro funcionaria como uma psicoterapia. Mas porque é que eu estou aqui a falar neste tipo de livros, perguntam vocês, ainda por cima porque já deixei transparecer a minha zanga com os ditos. Se ler um livro de auto-ajuda curasse alguém não haveria tanta gente doente ( cada vez mais) e os psicólogos não teriam trabalho. O que não acontece, porque os serviços de Saúde estão entupidos e a procura do particular é cada vez maior.
Então qual a função deste tipo de literatura? Negócio! Nada mais do que negócio. E o que me irrita mais é que alguns deles são escritos por psicólogos, que, detentores de algum saber acerca da motivação, escrevem umas frases em que se levanta a auto-estima do leitor e eles, os autores, arrecadam uns milhões passado algum tempo. Grande parte desses livros são estrangeiros , basta ir á Fnac e encontramos uma bancada repleta deles, nos mais variados titulos, mas todos com o mesmo conteúdo.
Bom, não acho que tal literatura seja perniciosa. Já li alguns por curiosidade e concordo com quase tudo o que lá está escrito, à excepção da parte em que fazem crer aos leitores que se podem curar a eles próprios. Isso não é verdade em rigor. Qualquer pessoa que esteja deprimida ou tenha um problema psiquico não se consegue curar a ela própria, uma vez que as doenças do foro psicológico só se curam com base numa nova relação, uma relação sanigenea como diz Coimbra de Matos ( Psicanalista ), ora o livro por mais informação que tenha e seja veridica, é inerte, não constrói uma relação, não dá feed-back, não narcisa, não alimenta a auto-estima. Assim, o que este livros de auto-ajuda fazem( sejam para curar depressões, enriquecer, motivar, etc) é encher os bolsos de editoras e autores e levantarem-les a auto-estima.
Podem ser uma leitura relativamente interessante para quem não tem problemas, fica informado dos aspectos motivacionais da psicologia comportamental e positivista, principios utilizados pelos seus autores. Para quem está doente, pode ficar ainda pior por começar a ter pensamentos cada vez mais negativos acerca de si próprio, uma vez que não consegue sentir-se melhor apesar de ler e reler o livro e de haver sempre quem lhe diga que não se cura porque não quer. A cura da parte emocional passa sempre pela relação com o outro, por isso o mais acertado é procurar ajuda num profissional que lhe ofereça uma nova relação que o ajude.

domingo, 7 de Junho de 2009

Porquê fazer psicoterapia?



"Percorrer um caminho interrompido, algures no desenvolvimento do sujeito"

Muitas pessoas ainda deixam de procurar um psicoterapeuta por preconceito ou vergonha. Para muitos, psicólogos só tratam loucos. Outros pensam: Porquê ir a um psicoterapeuta se pode conversar com um amigo ou ler um livro de auto-ajuda?Quantas vezes não contamos algo a alguém em busca de apoio e compreensão, somente para no fim nos sentirmos incompreendidos e decepcionados? Um amigo pode ajudar, mas não é um profissional, não conseguirá ser imparcial e provavelmente não está capacitado para ajudá-lo diante do enorme leque de dificuldades que encontramos durante a vida. Há aqueles que duvidam que "conversar" possa ajudar em alguma coisa, mas a palavra é capaz de curar. Hoje em dia as pesquisas na área das neuro-ciências já comprovam a eficácia e os benefícios da psicoterapia. Desta forma, a tendência é que com o tempo o estigma vá diminuindo e as pessoas percebam que o cuidado preventivo com a saúde mental, é tão importante quanto cuidar da saúde física.Muitos dos problemas com que lidamos na psicoterapia estão fora do alcance da nossa consciência. Ou seja: padrões inconscientes influenciam a maneira como agimos e como nos sentimos. O psicoterapeuta é um profissional treinado e formado para perceber esses padrões, e ajudar o paciente a percebê-los e a mudá-los.Em muitos casos, sabemos o que devemos fazer, mas não conseguimos. Isso ocorre porque existe uma diferença entre a compreensão intelectual de uma coisa, e a compreensão que vem do insight terapêutico, que ocorre de forma mais ampla do que a compreensão intelectual. As pessoas geralmente evitam procurar ajuda de um psicoterapeuta até que a situação se torne insustentável, ou que apareçam sintomas físicos. A separação entre o corpo e a mente só existe na teoria. Na prática, você é o seu corpo, e cada vez mais as pesquisas comprovam o quanto aquilo que sentimos e pensamos afeta o funcionamento do nosso corpo físico. Quando a psique está em desarmonia e não cuidamos dela, acabam surgindo sintomas físicos ou doenças psicossomáticas. Esses são os sinais de alerta do corpo, de que algo não vai bem.

domingo, 24 de Maio de 2009

Tristeza, depressão e experiência infantil

O afecto correspondente à melancolia é o luto ou pesar- isto é, o anseio por alguma coisa que se perdeu.
Sigmund Freud ( 1895)

A tristeza é uma reacção normal e saudável a qualquer infortunio. A maioria, se não todos, dos episódios mais intensos de tristeza é provocada pela perda, ou da previsão da perda, seja de uma pessoa amada, de lugares familiares e queridos, ou de papéis sociais. Uma pessoa triste sabe quem ( ou o que) perdeu e anseia pelo seu retorno. Além disso, provavelmente buscará ajuda e consolo em algum companheiro em quem confia e, em alguma parte da sua mente acreditará que com o tempo e assistência conseguirá recuperar-se, ainda que apenas em parte. Ainda assim, por vezes poder-se-a sentir deprimido durante algum tempo. A pessoa mentalmente sadia consegue atravessar fases de depressão e desorganização, delas saindo, depois de um periodo não excessivamente longo, com o comportamento, pensamento e sentimento já em vias de reorganização para interacções de um novo tipo. O senso de competência e o valor pessoal (auto-estima) permanece intacto e o sujeito prossegue a sua vida.
O que explica então os graus mais ou menos intensos de desespero que são caracteristicos dos disturbios depressivos, e o sentimento de abandono, de rejeição e de desamor experiementados com tanta frequência pelos pacientes como tantos autores desde Freud tem vindo a descrever.
Seligman (1973) chama a atenção para as razões pelas quais uma pessoa, tendo sido frequentemente malsucedida na solução de certos problemas, sente-se desamparada e, mesmo quando enfrenta um problema que tem capacidade de resolver, tende a não fazer qualquer tentativa nesse sentido. Se tentar, se tiver êxito, ainda assim pode considerar esse êxito como simples sorte. Esse estado de ispirito, que Seligman designa como “ desamparo aprendido”, é responsável, segundo ele, pelo desamparo presente nos distúrbios depressivos.
Na maioria das formas dos distúrbios depressivos, inclusive o luto crónico, a principal questão em relação à qual uma pessoa se sente desamparada é na sua capacidade de estabelecer e manter relações afectivas. O sentimento de desamparo pode, nesse caso, ser atribuído às experiências vivida pela pessoa na sua familia de origem durante a infância e que provavelmente continuam até uma fase adiantada da adolescência. Essas experiências são de três tipos:

1- É provável que a pessoa tenha passado pela experiência amarga de nunca ter estabelecido uma relação estável e segura com os seus pais, apesar de ter feito repetidos esforços para isso, inclusive de se ter esforçado ao máximo para atender as exigências deles e e talvez também as expectativas pouco realistas que tenham formulado a seu respeito. Essas experiências infantis fazem com que a pessoa desenvolva uma acentuada tendência a interpretar qualquer perda que possa sofrer mais tarde como mais um de seus fracassos em estabelecer e manter uma relação afectiva estável.

2- É provável que, muitas vezes, tenham dito à pessoa na sua infância, que ela era indigna de ser amada ( Portaste-te mal, não gosto de ti!), ou incoveniente ( Não aborreças, sai daqui!) ou inconpetente ( Já partiste isso, não tens tacto para nada!). Se passou por essas experiências de forma continuada desde a infância até à adolescencia, poderá ter desenvolvido um modelo de si mesmo de ser uma pessoa indigna de ser amada, indesejada, e de um modelo de figuras de apego ( pais ou substitutos) como sendo inacessíveis, ou rejeitadoras e punitivas. Sempre que uma pessoa assim, sofre uma adversidade, portanto longe de achar que os outros podem ajudá –la, espera deles hostilidade e rejeição. A maioria das pessoas sujeitas a estes modelos deprimem ainda durante a infância e adolescência, são o caso dos meninos “ hiperactivos” ou dos adolescentes com maus resultados escolares e caminhos de delinquência.

3- Num terceiro caso, houve mesmo uma perda real de um dos progenitores ou dos dois durante a infância, acarretando-lhe experiências muito desagradáveis ao nivel da segurança afectiva ( retirada das familias, adopção, entrega a familias de acolhimento, abandono e morte dos pais) quando as figuras substitutas não conseguem ser afectivas e seguras para que a vinculação se estabeleça novamente.

O contacto com experiências do tipo descrito aqui, contribui para explicar o desanimo e desamparo aprendidos da pessoa deprimida. Só uma nova experiência de vinculação a alguém que seja seguro, poderá ser reparadora. Essa experiência tem que ser no âmbito do psicoterapia. O procurar ajuda atempadamente poderá minimizar de imediato um sofrimento inimaginável para as pessoas sadias. Dai a dificuldade da familia em perceber na maioria das vezes os sentimenos e o comportamento das pessoas deprimidas. No caso das crianças e adolescentes, quanto mais cedo iniciar uma psicoterapia, mais probabilidades tem de na adultez vir a ter uma vida normal e sem sofrimento. No caso dos adultos, ao fim de algumas sessões o alivio dos sintomas tende a instalar-se e as melhorias na qualidade de vida surgem dia a dia. No entanto nem todas as pessoas deprimidas procuram ajuda, precisamento pelo “ desanimo aprendido”, então se as figuras da sua infância não o souberam amar ( não significa que não tenham amado, foi a leitura que a pessoa fez, mas no entanto por vezes não amaram mesmo), como é que a relação terapeutica pode ser boa e reparadora? Neste caso o papel dos familiares é fundamental. Quando a pessoa precisa de ajuda e resiste a ir a uma consulta, os familiares poderão marcar consulta em conjunto ( pais/ filhos pequenos ou adolescentes, maridos/ esposas, etc), sendo a consulta para a familia e, deixar ao psicoterapeuta a tarefa de “ convencer” a pessoa a iniciar um tratamento. Volto a referir que os medicamentos antidepressivos só em algumas situações se aplicam e que só a psicoterapia ajuda a resolver o problema. O que acontece, na maioria das pessoas deprimidas ,são a frequencia de consultas de psiquiatria só com intervenções farmacológicas e um arrastar da doença anos a fio nas mãos de profissionais, ou mal informados, ou a acreditarem que resolvem tudo. Cabe à familia muitas vezes, encaminhar os doentes incapazes de tomarem uma decisão porque assim o aprenderam quando lhe foi incutido um sentimento de inutilidade e de incapacidade.

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Psicose e esquizófrenia

A esquizofrenia é uma perturbação mental grave caracterizada por uma perda de contacto com a realidade (psicose), alucinações, delírios (crenças falsas), pensamento anormal e alteração do funcionamento social e laboral.
A esquizofrenia é um problema de saúde pública muito grave em todo o mundo. A prevalência da esquizofrenia a nível mundial parece ser algo inferior a 1 %, embora se tenham identificado zonas de maior ou de menor prevalência. Em alguns países, as pessoas com esquizofrenia ocupam cerca de 25 % das camas dos hospitais.
Há várias perturbações que partilham características com a esquizofrenia. As perturbações que se parecem com a esquizofrenia, mas nas quais os sintomas estiveram presentes menos de 6 meses, denominam-se perturbações esquizofreniformes. As perturbações nas quais os episódios de sintomas psicóticos duram pelo menos um dia, mas menos de um mês, chamam-se perturbações psicóticas breves. Uma perturbação caracterizada pela presença de sintomas do humor, como a depressão ou a mania, juntamente com outros sintomas típicos da esquizofrenia, chama-se perturbação esquizoafectiva. Uma perturbação da personalidade que pode partilhar sintomas da esquizofrenia, mas na qual os sintomas não são bastante graves para reunir os critérios de psicose, chama-se perturbação esquizotípica da personalidade.

Causas

Muitas correntes teóricas e quase todas as autoridades na matéria atribuem apenas causas biológicas à esquizofrenia. No entanto o que a prática e a investigação decorrente dai, relata desde há muito ( desde Freud) como principais causas, são relacionais, ou seja, da interacção mãe criança ou pais criança e cuidadores na ausência dos pais. Condições ambientais adversas tais como abandono, negligencia ou uma mãe incapaz de empatizar e ler as manifestações do bébé e que ainda o confunde ( ver posts sobre a patogenia da função materna) nas sensações que apresenta, são na sua maioria factores que contribuíram para a alteração do estado mental da pessoa. No entanto a esquizofrenia pode ter causas biológicas, são caso desse exemplo as provocadas pela ingestão de substâncias.

Sintomas

A esquizofrenia começa mais frequentemente entre os 18 e os 25 anos nos homens e entre os 26 e os 45 anos nas mulheres. No entanto, não é raro que comece na infância ou cedo na adolescência. A instalação pode ser súbita, no espaço de dias ou de semanas, ou lenta e insidiosa, ao longo de anos.

A gravidade e o tipo de sintomatologia podem variar significativamente entre diferentes pessoas com esquizofrenia. Em conjunto, os sintomas agrupam-se em três grandes categorias: delírios e alucinações, alteração do pensamento e do comportamento e sintomas negativos ou por défice. Uma pessoa pode ter sintomas de um ou dos três grupos. Os sintomas são suficientemente graves para interferir com a capacidade de trabalho, de relação com as pessoas e do próprio cuidado.
Os delírios são crenças falsas que, geralmente, implicam uma má interpretação das percepções ou das experiências. Por exemplo, as pessoas com esquizofrenia podem experimentar delírios persecutórios ( são perseguidos), crendo que estão a ser atormentadas, seguidas, enganadas ou espiadas. Podem ter delírios de referência, crendo que certas passagens dos livros, dos jornais ou das canções se dirigem especificamente a elas. Estas pessoas podem ter delírios de roubo ou de imposição do pensamento, crendo que outros podem ler as suas mentes, que os seus pensamentos são transmitidos a outros ou que os seus pensamentos e impulsos lhes são impostos por forças externas. Podem ocorrer alucinações de sons, de visões, de cheiros, de gostos ou do tacto, embora as alucinações de sons (alucinações auditivas) sejam, de longe, as mais frequentes. Uma pessoa pode «ouvir» vozes que comentam o seu comportamento, que conversam entre elas ou que fazem comentários críticos e abusivos.
A alteração do pensamento consiste no pensamento desorganizado, que se torna patente quando a expressão é incoerente, muda de um tema para outro e não tem nenhuma finalidade. A expressão pode estar levemente desorganizada ou ser completamente incoerente e incompreensível. O comportamento alterado pode tomar a forma de simplismos de carácter infantil, agitação ou aparência, higiene ou comportamento inapropriados. O comportamento motor catatónico é uma forma extrema de comportamento desorganizado no qual uma pessoa pode manter uma postura rígida e resistir aos esforços para a mover ou, pelo contrário, mostrar actividade de movimentos sem estímulo prévio e sem sentido.
Os sintomas negativos ou por défice da esquizofrenia incluem frieza de emoções, pobreza de expressão, anedonia e associabilidade. A frieza de emoções é uma diminuição destas. A cara da pessoa pode parecer imóvel; tem pouco contacto visual e não exprime emoções. Não há resposta perante situações que normalmente fariam uma pessoa rir ou chorar. A pobreza de expressão é uma diminuição de pensamentos reflectida no facto de a pessoa falar pouco. As respostas às perguntas podem ser concisas, uma ou duas palavras, dando a impressão de vazio interior. A anedonia é uma diminuição da capacidade de experimentar prazer; a pessoa pode mostrar pouco interesse em actividades anteriores e passar mais tempo em actividade inúteis. A associabilidade é a falta de interesse em relacionar-se com outras pessoas. Estes sintomas negativos estão, frequentemente, associados a uma perda geral da motivação, do sentido de projecto de vida e das metas a atingir.

Diagnóstico

Não existe uma prova de diagnóstico definitiva para a esquizofrenia. O psiquiatra ou psicoterapeuta elabora o diagnóstico baseando-se numa avaliação da história da pessoa e da sua sintomatologia. Para estabelecer o diagnóstico de esquizofrenia, os sintomas devem durar pelo menos 6 meses e associar-se à deterioração significativa do trabalho, dos estudos ou do desenvolvimento social. A informação procedente da família, dos amigos e dos professores é com frequência importante para estabelecer quando a doença começou.

Prognóstico

A curto prazo (1 ano), o prognóstico da esquizofrenia está intimamente relacionado com o grau de fidelidade com que a pessoa cumpre o plano do tratamento farmacológico. Sem tratamento farmacológico, 70 % a 80 % das pessoas que experimentaram um episódio de esquizofrenia manifestam durante os 12 meses seguintes um novo episódio. A administração continuada de medicamentos pode reduzir para cerca de 30 % a proporção de recaídas.
A longo prazo, o prognóstico da esquizofrenia varia. De um modo geral, um terço dos casos consegue uma melhoria significativa e duradoura, outro terço melhora de certo modo com recaídas intermitentes e uma incapacidade residual e outro terço experimente uma incapacidade grave e permanente. São factores associados a um bom prognóstico o começo repentino da doença, o seu início na idade adulta, um bom nível prévio de capacidade e de formação e o subtipo paranóide ou não deficitário. Os factores associados a um mau prognóstico incluem um começo em idade precoce, um pobre desenvolvimento social e profissional prévio, uma história familiar de esquizofrenia e a exploração do ambiente familiar ao nível dos afectos.
A esquizofrenia tem um risco associado de suicídio de 10 %. Em média, a esquizofrenia reduz em 10 anos a esperança de vida.

Tratamento

Os objectivos gerais do tratamento são os seguintes: reduzir a gravidade dos sintomas psicóticos, prevenir o reaparecimento dos episódios sintomáticos e a deterioração associada do funcionamento do indivíduo e administrar um apoio que permita ao doente um funcionamento ao máximo nível possível. Os fármacos antipsicóticos, a reabilitação profissional e as actividades com apoio comunitário e a psicoterapia são os três componentes principais do tratamento.
Quanto mais cedo iniciar o tratamento (farmacológico e psicoterapeutico) maior são as hipóteses de conseguir estabilizar a doença e conseguir uma qualidade de vida razoável ao nível social pessoal e laboral.
No caso das crianças, qualquer sinal de comportamento estranho, desadequado para a idade atraso de desenvolvimento ( fala, raciocínio, relacional) requerem uma intervenção imediata.

terça-feira, 12 de Maio de 2009

Depressão: causas, sintomas e tratamento.

A depressão é a principal causa de incapacidades e a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis entre as doenças psicológicas mais comuns. Os custos pessoais e sociais da doença são muito elevados.
Uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão. Um em cada cinco utentes dos cuidados de saúde primários portugueses encontra-se deprimido no momento da consulta.

O que é a depressão?

A depressão é uma doença dos afectos ( auto-estima) que se caracteriza por tristeza mais marcada ou prolongada, perda de interesse por actividades habitualmente sentidas como agradáveis e perda de energia ou cansaço fácil.
Ter sentimentos depressivos é comum, sobretudo após experiências ou situações que nos afectam de forma negativa essa é denominada depressão reactiva ou de luto. No entanto, se as circunstancias não são de perda, se os sintomas se agravam e perduram por mais de duas semanas consecutivas, convém começar a pensar em procurar ajuda psicoterapêutica e não médica ao contrario do que a classe médica faz notar.
A depressão pode afectar pessoas de todas as idades, desde a infância à terceira idade, e se não for tratada, pode conduzir ao suicídio, uma consequência frequente da depressão. Estima-se que esta doença esteja associada à perda de 850 mil vidas por ano, mais de 1200 mortes em Portugal ( Ministério da Saúde).
A depressão pode ser episódica ( reactiva a acontecimentos de vida), recorrente ( instalada desde a infância) ou crónica ( sem tratamento, ou com tratamento farmacológico), e conduz à diminuição substancial da capacidade do indivíduo em assegurar as suas responsabilidades do dia-a-dia. A depressão pode durar de alguns meses a alguns anos. Contudo, em cerca de 20 por cento dos casos torna-se uma doença crónica sem remissão. Estes casos devem-se, fundamentalmente, à falta de tratamento adequado.

Quais são os sintomas da depressão?

A depressão diferencia-se das normais mudanças de humor pela gravidade e permanência dos sintomas. Está associada, muitas vezes, a ansiedade e/ou pânico.
Os sintomas mais comuns são:
Modificação do apetite (falta ou excesso de apetite);
Perturbações do sono (sonolência ou insónia);
Fadiga, cansaço e perda de energia;
Sentimentos de inutilidade, de falta de confiança e de auto-estima, sentimentos de culpa e sentimento de incapacidade;
Falta ou alterações da concentração;
Preocupação com o sentido da vida e com a morte;
Desinteresse, apatia e tristeza;
Alterações do desejo sexual;
Irritabilidade;
Manifestação de sintomas físicos, como dor muscular no dorso e nos braços e pernas, dor abdominal, enjoo.
Quais são as causas da depressão?
As causas não diferem muito de pessoa para pessoa ao contrario daquilo que é instituído pela classe médica. Porém, é possível afirmar-se que há factores que influenciam o aparecimento e a permanência de episódios depressivos. Por exemplo, condições de vida adversas, o divórcio, a perda de um ente querido, o desemprego, a incapacidade em lidar com determinadas situações ou em ultrapassar obstáculos, etc.
Sendo a depressão uma doença dos afectos o que as pesquisas e a pratica clínica nos dizem é que a falta de afecto ou sentido como tal (não é o acontecimento de vida que interessa mas a leitura que a pessoa faz dele) é a sua principal causa. A pessoa pode andar muitos anos com um sentimento de insatisfação que não sabe identificar (depressibilidade), sem nunca deprimir verdadeiramente, mas um dia numa mudança de vida (casamento, nascimento de um filho, morte de familiar, gravidez, saída de casa dos filhos etc,) a depressão surge e se a pessoa procura ajuda, o que encontramos por detrás é a falta de afecto vinda da infância, por vezes muito inconsciente e que aos poucos com o decorrer da terapia surge, causando um alivio dos sintomas à medida que os sentimentos são elaborados.
Algumas doenças podem provocar ou facilitar a ocorrência de episódios depressivos ou a evolução para depressão crónica. São exemplo as doenças infecciosas, a doença de Parkinson, o cancro, outras doenças mentais, doenças hormonais, a dependência de substâncias como o álcool, entre outras. O mesmo pode suceder com certos medicamentos, como os corticóides, alguns anti-hipertensivos, alguns imunossupressores, alguns citostáticos, medicamentos de terapêutica hormonal de substituição, e neurolépticos clássicos, entre outros.

Tratamento

O tratamento da depressão está associado desde há muito pela classe médica à terapia farmacológica, conduzindo na maioria das vezes a um empate por parte destes na resolução dessa depressão, ou seja, os médicos dificilmente encaminham alguém para psicoterapia (há honrosas excepções felizmente) receitando medicamento às pessoas uma vida inteira, ou seja colocando uma “ rolha” que impede o sentimento de sair e ser elaborado. Ao tomar medicamentos a pessoa não pensa, e não deprime na realidade. A cura da depressão passa elaboração dos sentimentos com a ajuda do psicoterapeuta. Ninguém se consegue curar sózinho nem só com medicamentos.
Existem casos que de facto precisam de medicamentos: as pessoas já muito idosas, com pouca capacidade de pensar, com outras doenças físicas associadas, mas mesmo essas beneficiam sempre com a psicoterapia, porque é sempre possível trazer à consciência coisas que estavam fora dela tornando a existência mais leve.
A vergonha, o medo da relação com o psicoterapeuta, a pressão dos familiares, a pressão da classe médica são os principais factores que impedem a pessoa de procurar ajuda. Poder-se-á crer que é a falta de dinheiro que afasta as pessoas da psicoterapia, mas não é. Para quem não sabe a maioria dos psicólogos que são psicoterapeutas não praticam preços fixos ajustando-se à bolsa da pessoa, possibilitando assim o acesso a quase todas as pessoas. Como a psicoterpia implica uma relação ( paciente/terapeuta) quero esclarecer que por vezes essa relação não funciona por questões de ambos. Se consultar um psicólogo ou psicoterapeuta com o qual não se sinta bem, procure outro, porque a relação é importante. No caso das crianças e adolescentes antes de marcar a consulta informe-os e discuta a situação com eles. Se o adoelscente for renitente à consulta marque a consulta para a familia e então será mais fácil o seu consentimento, uma vez que desvia o foco da atenção para o grupo. Se está doente procure ajuda psicoterapeutica, se precisar de medicamentos será encaminhado para um médico da especialidade.

domingo, 10 de Maio de 2009

Depressão bipolar

Cerca de 1% da população portuguesa sofre de Depressão Bipolar. É uma doença que altera as emoções de tal forma que pode conduzir à perda do emprego, à perda das ligações familiares e sociais, ao divórcio, ao suicídio, e ao sofrimento dos doentes e suas famílias. A Depressão não é causada por uma fraqueza pessoal, ou por falta de controlo - é uma doença que pode ser tratada com fármacos e psicoterapia em simultâneo, sendo esta ultima essencial ao processo de tratamento.
Estima-se que 25 a 30% das pessoas com sintomas da doença bipolar não estejam ainda diagnosticadas, até porque muitos doentes se recusam a aceitar ajuda médica, sobretudo quando se encontram na fase de euforia.
O diagnóstico da depressão bipolar não se faz por vezes na altura própria. Mesmo que simplificado, o reconhecimento das peculiaridades da Doença Bipolar diminuem a frustração dos doentes e dos que os rodeiam, possibilitando uma melhor qualidade de vida através de tratamento médico e psicoterapeutico adequado. A família e os amigos aprendem a reconhecer as oscilações do humor, pois a pessoa nega que esteja errada.
A Depressão Bipolar é uma doença psicológica conhecida por Maníaco-Depressiva. É caracterizada por elevadas alterações do humor, com crises repetidas de depressão e de “mania”. Estas perturbações são repercutidas nas sensações, emoções, ideias e comportamentos, com consequências para a saúde e para a personalidade.
Uma crise pode durar alguns dias ou vários meses. Os períodos de estabilidade entre crises podem durar dias, meses ou anos. Também a previsão das crises varia consoante a pessoa. Umas terão uma ou duas crises durante a vida, outras caem repetidamente vezes em certas alturas do ano (caso não faça tratamento) e há ainda outras que têm mais do que quatro crises por ano, são os ciclos rápidos.
A doença pode começar durante ou depois da adolescência, especialmente entre os 20 e os 30 anos, e afecta ambos os sexos em percentagem idêntica.

Fase maníaca

A “mania” manifesta-se em estados de humor elevado, eufórico ou irritável. A pessoa sente-se alegre, altiva, sociável, inteligente e criativa. A elevação progressiva do humor e a aceleração psíquica podem trazer consigo alguns ou todos os sintomas:
Irritabilidade extrema (a pessoa torna-se exigente quando os outros não pactuam com as suas vontades)
Crença não realista das suas capacidades e poderes
Capacidade de julgamento pobre
Comportamento provocante, inoportuno e agressivo
Negação do óbvio, de que está errado
Energia elevada (hiperactividade), reduzindo a necessidade de sono e aumentando o abuso de álcool, medicamentos e drogas para dormir
Auto-estima elevada
Repentinas e imprevisíveis alterações emocionais (a fala é rápida, mudança frequente de assunto, nunca acabando o primeiro, os pensamentos aceleram-se)
Reacções excessivas e interpretações erradas de acontecimentos, irritação e dificuldade de enfrentar comentários banais
Dificuldade de assimilar ideias, transmitindo-as de modo errado
Maior interesse por diversas actividades
Aumento da vontade sexual
Não reconhecimento da doença, tenta recusar o tratamento
Culpar os outros pelo que ocorre de mal, inclusive pela própria doença
Perda da noção da realidade
Incoerência de actos

Fase depressiva

A depressão manifesta-se pela tristeza e pelo desespero. Deste modo, os sintomas são:
Obsessão com pensamentos negativos, não conseguindo afastá-los
Preocupação com fracassos ou incapacidades
Sentimentos de inutilidade, culpa excessiva
Perda de interesse ou prazer em actividades quotidianas (trabalho, hobbies, pessoas, familiares, amigos e sexo
Pensamento lento, esquecimento, dificuldade de concentração e em tomar decisões
Perda de energia, sentimento de fadiga ou agitação e inquietação
Preocupação excessiva com queixas físicas
Alterações do apetite e do peso
Dificuldades em dormir, ou dormir excessivamente
Choro fácil ou vontade de chorar sem ser capaz
Pensamentos repetitivos de morte ou suicídio
Uso excessivo de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias
Podem existir crises mistas, de depressão e de “mania”. É o caso da Depressão Tipo I.O tipo II não apresenta episódios de mania, mas de hipomania com depressão (crises depressivas graves e fases leves de elevação do humor).
Há uma tendência para os pacientes fazerem várias crises de um tipo e poucas de outro; há doentes bipolares que nunca tiveram fases deprimidas e há deprimidos que só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram numerosas.
A depressão e a “mania” graves podem ser acompanhadas por períodos de psicose que incluem alucinações (sentir, cheirar, observar coisas que não existem) e delírios (falsas crenças baseadas no ilógico, apesar da existência da evidências do contrário).
O melhor conhecimento, reconhecimento da doença e dos aspectos gerais de tratamento visam permitir uma colaboração mais activa entre todos (doente, família, médico psiquiatra, médico de família e outros técnicos de saúde). Trata-se da sua saúde e da sua vida.

Causas

As causas são multifactoriais. Uma infância pobre em afectos, mudanças e perdas afectivas, insegurança estão na base da génese da depressão bipolar. Depois existem várias teorias biológicas e genéticas que apontam para a mudança química que existe no cérebro aquando das crises. Sabemos que as adversidades da vida, constantes e intensas, vão trazendo ao sujeito graves prejuízos ao nível da sua vida afectiva. Ao longo do tempo a química cerebral modifica-se por influencia das emoções e, cada vez surgem mais episódios de bipolaridade. Quanto mais tempo passa mais difícil se torna estabilizar o humor.

Tratamento

Os tratamentos disponíveis farmacológicos (estabilizadores do humor, antidepressivos e antipsicóticos) e psicoterapia reduzem o sofrimento causado evitando as complicações devastadoras. O médico psiquiatra pode levar algum tempo até conseguir o tratamento adequado ao paciente o que por vezes origina o abandono do tratamento. Deverá ser explicado ao paciente que levará algum tempo até o seu médico conseguir encontrar um tratamento eficaz.
A Psicoterapia, o diálogo sobre as emoções e a depressão com um profissional qualificado, em associação com o tratamento farmacológico, proporciona suporte, educação e orientação para o doente e sua família. Tenta conseguir a obtenção de novos comportamentos através da elaboração das emoções. No caso da depressão bipolar é necessário uma intervenção conjunta de médico psiquiatra e Psicólogo/psicoterapeuta.